Na semana em que se encerram as Paralimpíadas realizadas no Rio de Janeiro, minha cidade natal, o sentimento é de contradição. Aquela sensação de saudade do lugar onde cresci e vivi os melhores momentos de minha vida, misturada com o sabor amargo e angustiante do alívio por estar longe. Sou porta voz de meu filho de 9 anos, tetraplégico devido a uma paralisia cerebral severa, que não pode falar. Mais do que sua voz, sou seus braços, suas pernas, seu cérebro. E em contrapartida, ele é meu coração. Só nós sabemos a dor da exclusão social, ao viver em uma cidade que rejeita o que lhe é diferente.

Para saber ao pé da letra o que é “Inclusão”, é muito simples. Basta ir ao dicionário online e vc encontrará respostas como esta:

“Incluir v.t. 1. Compreender, abranger. 2. Conter em si. 3. Inserir, introduzir. 4. Estar incluído ou compreendido; fazer parte. Inclusão sf.”

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Foto: Mari Hart

Pelo fato da palavra “Inclusão” ser relativamente nova, e sua atividade mais recente ainda, ainda existem percepções de ambivalência e confusões em relação a ela. E em quase uma  década sendo mãe de uma criança com deficiência, tenho a sensação que informar não é só meu dever, mas minha missão. No mundo real onde eu e meu filho existimos, isso são apenas palavras. E como pode ter diversos significados e interpretações, venho aqui falar sobre a inclusão da pessoa com deficiência na sociedade, na prática. A mesma inclusão que começa dentro de casa junto com o irmão gêmeo de meu filho deficiente, minha filha adolescente e meu marido, grande parceiro de vida.

Incluir não é aceitar. Eles não precisam de comiseração. Incluir é integrar plenamente, compreender o próximo com suas necessidades específicas e limitações, e abrir seu mundo ao infinito. É estar dentro. Um só. Inserido de fato. Tendo consciência de que não existimos sem uns aos outros. Diferentes. Como precisa ser um quebra-cabeça para estar completo e chegar ao seu fim. Incluir não é favor ou privilégio. É ter um reconhecimento digno e legítimo como cidadão, e o direito à igualdade.

Já disse o filósofo: “É preciso tratar desigualmente os desiguais”. E por isso lutamos por direitos e tb deveres.

Embora o direito de ir e vir esteja previsto em constituição, a acessibilidade ainda é um dos maiores obstáculos à pessoa com deficiência. Tiram-no o pleno direito à liberdade. Com isso, perde-se de tudo um pouco, incluindo a dignidade. Em pleno 2016, é inadmissível que ainda devemos lutar para o básico, um mundo feito para todos, cada um com suas diferenças. A verdadeira integração social, com espaços preparados para seres humanos com limitações físicas e/ou sensoriais, vagas em mercado de trabalho e oportunidades iguais. Um mundo feito para humanos. De todos os tipos.

E por isso, há exatamente 1 ano, parti sem olhar para trás. Hoje, na Florida, meu filho é respeitado, conhecemos a verdadeira inclusão social e escolar, temos zero problemas de acessibilidade, e assim, encontramos um mundo onde o sonho é real. Bato na tecla de que não existe lugar perfeito. A grande questão é que tipo de problemas queremos enfrentar. Usar o livre arbítrio, sair da zona de conforto, ousar. Se não podemos mudar a realidade à nossa volta, que sejamos nossa própria mudança, em nosso infinito particular. Nós podemos aquilo que nos permitimos poder!

A diversidade entre origem, raça, classe social, religião, etnias, etc, são fatores importantes e necessários para uma sociedade heterogênea, e assim, evolutiva. Em um atual momento onde se discute tanto sobre ética, reavaliação de valores, questionamento do senso comum, é urgente que estejamos cientes de que somente incluindo, é que conseguiremos um mundo interrompendo ciclos de pré-conceitos e ações hereditárias que perpetuam o capacitismo e intolerância ao diferente, criado historicamente por séculos. Logo, a inclusão social não é uma luta somente dos deficientes. É uma batalha a ser conquistada por todos nós. Desconstruindo, para construir. E as ferramentas de amor, vontade e desejo de um futuro melhor, estão nas nossas mãos.


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