Quando eu tinha 20 anos, estava no auge da minha juventude, corpo enxuto com tudo em cima, pele macia, cabelos loiros sedosos com um leve ondulado. Me sentia maravilhosa, achava que podia tudo e que tinha o mundo aos meus pés. Coloquei um salto alto e sai na rua para dar um passeio. De repente, passava um rapaz bonito que me olhou com um olhar estonteante, fez um fiu fiu e disse: Que gata! Joguei os cabelos pra trás e subi no salto.

Cheguei aos 30 e me senti no auge da minha maturidade, ainda com um corpo merecedor de elogios. Pele e cabelos ainda nos trinques, olhar de diva e energia pra dar e vender. Coloquei meu salto alto e sai pra rua. De repente passa um moleque me olha e diz: Tia, me dá um dinheiro aí. Tropecei no salto, perdi um pouco o equilíbrio mas me mantive firme.

Chegando aos 40, ainda me achava um mulherão, mesmo depois de ter tido mais um filho. Muita dieta e exercícios mantiveram meu corpo em forma, embora alguns fios de cabelos brancos começassem a aparecer. Mas nada que um bom “highlight” não resolvesse a questão. Além disso, a visão começava a enfraquecer, mas as lentes de contato estavam ali pra serem usadas. Coloquei meu salto alto e sai pra rua, passei por vários rapazes de tirar o fôlego, mas notei que só os maiores de 70 me davam bola. Dei uma tropeçada e torci o pé, mas mesmo capenga segui adiante.

Cheguei aos 50, acordei, me olhei no espelho e não gostei do que vi. Bunda e peitos caídos, algumas rugas e pés de galinha, um verdadeiro filme de terror. Me lembrei que estava vivendo em tempos modernos, várias tecnologias novas que eu poderia usar a meu favor. Lembrei também que alguns anos eu vinha fazendo uma poupança à espera desse dia, corri pra um cirurgião plástico afim de fazer uma recauchutagem geral da carroceria, incluindo a lanternagem, é claro. Tão logo eu fui liberada, coloquei o bendito salto alto e fui dar um rolê. De repente vem vindo um rapaz todo malhadão, barriga de tanquinho, me olhou de cima abaixo e chegando pertinho de mim disse: Coroa enxuta. Dessa vez eu literalmente caí do salto.

Cheguei aos 60, me olhei no espelho e constatei a triste realidade: os highlights já não podiam esconder a cabeça toda branca, a cirurgia plástica já não faria mais os efeitos desejados, os cremes e tantas outras coisas apenas amenizariam os efeitos da natureza, mas nada absolutamente nada consegue deter a transformação provocada pela mãe natureza. Dessa vez, eu me arrumei, coloquei um leve perfume, minha sandália rasteirinha e sai pra rua, mas dessa vez apenas pra respirar ar fresco e dar um passeio. Percebi que o salto alto já não cabia mais na minha vaidade e que eu não me preocupava mais com o que ia pensar ou me falar. Percebi que o importa na realidade não é o nosso exterior e sim a nossa essência, os sentimentos de amor que estão dentro de nós. Percebi que meu corpo está envelhecendo sim e apresenta as marcas do que foi a minha vida, as cicatrizes e as dores sofridas, mas também as alegrias e conquistas que obtive ao longo da minha caminhada. Percebi que a minha idade física não tem a ver com a minha idade mental e essa eu garanto que ficou estacionada nos 30.

Todo esse entendimento e aceitação dessa realidade trouxeram paz ao meu coração. E é essa paz que eu gostaria de transmitir à todos aqueles que se encontram na tão famosa “ terceira idade “. Agora caminho aos 70 de cabeça erguida e com a sensação de missão semicumprida, sem piração, ainda tenho mais alguns anos de caminhada e com certeza novas missões e desafios virão.

Um Feliz 2020 a todos!